Maquiavélicas Eleitorais
Atualizando Machiavelli, para a nossa diversão. Aceito sugestões.
I – O mal pode ser feito durante quatro anos, mas o bem deve ser feito todo de uma vez só - e em ano eleitoral. A memória afetiva da raiva e da dor se dissolverá se o mal for feito paulatinamente, enquanto é preciso que a sensação de contentamento, em decorrência da obra inaugurada ou do recurso público distribuído, dure pelo menos até a eleição.
II – Ninguém nunca vai realmente saber quem você é, se souber gerenciar o que você faz, diz e o modo como se apresenta. O manejo das aparências é a única forma eficaz de controlar a opinião alheia sobre você. Cuide das aparências e os jornalistas se encarregarão de distribuí-la aos eleitores.
III - É melhor parecer do que ser, porque as circunstâncias mudam e é mais fácil mudar a sua imagem do que aquilo que você realmente é. Vão chamar isso de “hipocrisia” ou ”incoerência”, mas você mesmo a deve chamar de ”flexibilidade”.
IV – Em política, não existe imagem boa ou má, existe só imagem conveniente ou incoveniente. Às vezes é conveniente ter características que a sua avó, religiosa e pia, acharia apropriadas apenas a pessoas de má catadura. Outras vezes será incoveniente parcer bonzinho e honesto. E o que é conveniente um dia pode ser incoveniente noutro porque os eleitores e os jornalistas mudam frquentemente de opinião.
V – Importe-se com o destinatário da sua mensagem, não com o público em geral. Seria ótimo ser amado e aprovado por todos, mas visto ser isso impossível, concentre-se naqueles cujos votos você pode conseguir, sem espantar os outros, claro. Se for preciso escolher, agrade aos pobres (lembre-se que para agradar aos pobres é preciso agradar os pobres…e isso não é sóuma diferença de regência verbal), e aos com baixa escolaridade, pois eles têm um maior estoque de votos do que todos os outros. Lembre-se que o incoveniente da democracia é que você precisa ser popular para ser eleito.
VI -Lembre-se de que você corre o risco de ser eleito. Nesse caso, seu “eleitorado” muda, pois precisará do voto dos que foram eleitos como voce. As características desse novo público é a mesma dos eleitores em geral, exceto que além de mimos e afagos eles gostam também de controlar cargos e recursos públicos. Nesse caso, ser amado e ser temido são igualmente conveniente para que voce obtenha o que quiser, mas, se tiver que escolher, é melhor ser temido do que amado, porque o medo é uma emoção mais estável e confiável do que amor.
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
O Ficha Limpa nos protegerá do povo
Ninguém, com apreço à democracia, ficará descontente se o projeto de lei de iniciativa popular, apelidado de Ficha Limpa, for sancionado pelo Presidente da República, como deve ser. Afinal, 1,6 milhões de brasileiros foram mobilizados pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (http://www.mcce.org.br/), numa articulação que durou cerca de dois anos e contou com o apoio de muitas organizações civis, dentre as quais a CNBB. Foi aprovado na Câmara depois de uma longa batalha que muitos já davam como perdida, mas que certamente foi ajudada pela pretensões eleitorais de M. Temer na chapa de D. Rousseff. No Senado, exceto por uma alteração redacional de F. Dornelles (PP), que depois teve que explicar a todo mundo que a intenção não tinha sido aliviar para P. Maluf (PP), tudo foi tranqüilo. Nada como uma eleição à vista para tornar deputados e senadores convictos e solícitos servidores da vontade popular.
Agora é com Lula, que não rasga dólar e já vai ter problemas demais na vida para vetar, se tiver coragem, o que foi aprovado no pacote de bondades do Senado para os aposentados. Velhinhos votam… Aleluia!
Pelo que logrei entender, não é uma Lei da Ficha Limpa o que foi aprovado, mas uma alteração da Lei Complementar nº 64, de 1990 (http://www.marcelobessa.com.br/tre_ineleg.pdf), que arrola as chamadas Inelegibilidades no Brasil. Possivelmente deve constituir a 10ª restrição, numa lista que começa, vejam só, com os “inalistáveis e analfabetos” . O que se aprovou aqui é que tampouco os condenados (em decisão transitada em julgado e por órgão judicial colegiado) possam ser elegíveis, portanto, candidatos nos campeonatos eleitorais.
O que se pretende com isso? A Lei das Inelegibilidades é claramente protetora. Diz que quer proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato, a normalidade e legitimidade de eleições. Proteger de quê? “Contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício da função, cargo ou emprego na administração pública” . É o que diz, mas este não pode ser o caso do impedimento da candidatura de (colegiadamente) condenados por crimes. Vai ver que ficaram só com o que se quer proteger, deixando-se fora do argumento o “de quê”. Que seja.
Tem um coisa, e provavelmente uma coisa só, que me incomoda nessa ideia. O fato é que na verdade, todos querem se proteger da escolha popular. Não precisaríamos impedir condenados de se candidatar se não tivéssemos medo de que eles fossem eleitos. E não teríamos medo de que fossem eleitos se acreditássemos no discernimento popular. Afinal, candidatura não dá mandatos, apenas habilita o sujeito a tentar conseguir votos. Estes, sim, concedem mandatos. Entre a candidatura e o exercício dos mandatos, há os votos. E estes não são concedidos (nem deveriam ser retirados) pela lei, mas pelos eleitores, no pleno exercício da sua liberdade de consciência.
Ou não?
Não patrulho consciências, mas esta é a base da crença democrática. Se não se acreditar nisso, melhor então deixar a escolha dos representantes por conta dos mais sábios, dos mais fortes ou dos mais “articulados”, a depender do gosto – mas tudo isso seria já autocracia e não democracia.
No fundo, há no Brasil, uma inescapável tendência protecionista. Quem deve ser protegido? Uma grandeza social que em geral identificamos como “os outros”, ou, em momentos mais relaxados e de intimidade, como “o povão”, “a massa”, o andar de baixo, a patuléia, os dalits… O nosso “outro” democrático são uma outra classe social, os pobres e parvos, tão parvos porque pobres. Estes devem ser protegidos porque seriam vulneráveis – cognitivamente e comportalmente vulneráveis. “Nós”, não, safos e sábios que somos, usamos a nossa discrição e o nosso discernimento para tomar boas decisões, filtrando as “manipulações” e os engodos, que são os cantos das sereias que seduzem e desviam “os outros”. Quem dentre “nós” admitiria a possibilidade de votar num candidato condenado? Nós, não. Nós escolhemos candidatos somente nas gôndolas mais finas, nas prateleiras mais exclusivas, nas gavetas especiais. Mas não garantimos pelos “outros”, que por serem manipuláveis e estúpidos ou não contarem com os recursos de inteligência e formação de que dispomos, podem escolher mal. “Eles”, sim, poderiam votar em criminosos e torná-los nossos representantes. Na verdade, nem vamos protegê-los, porque não há jeito de se fazer isso rapidamente; vamos nos proteger deles, impedindo que políticos condenados apareçam no seu cardápio de consumo.
Depois das eleições, em geral bradamos o nosso desconforto contra os “outros”. Foram eles que escolherem Maluf tantas vezes em São Paulo enquanto “nós” já sabíamos que se tratava de um moço de má catadura. Se você é anti-PT certamente gritou a sua fúria contra os “nordestinos” (esta raça inventada lá por São Paulo e Rio de Janeiro por volta nos anos 1960, quando o IBGE apagou o Leste do mapa brasileiro, e que constituem matéria de crença dogmática dos jornalistas da Folha, Veja, Estadão…) e os que vivem das esmolas do governo, nos “grotões” (essas reentrâncias sombrias que me arrepiam a alma), pela derrota de Alckmin.
Não é à toa que a CNBB estivesse tão empenhada no projeto. A Igreja Católica é uma instituição essencialmente protetora dos vulneráveis. Sendo parvo o povo e astuto o político, vamos ao menos tentar oferecer políticos com um teor moral mais elevado (ou pelo menos não tão baixo). Assim, ao negar ao povo uma opção ruim evitamos que ele cometa erros. Pois é! O jornalismo brasileiro, humanista e com pitadas de esquerda, também é uma instituição protetora e, portanto, desconfiada de que certas opções é melhor que não sejam oferecidas a quem as pode exercer mal. A bondade é protetora! E que nos protege dela?
Não vou negar que a baixa qualidade da oferta no mercado político (que, convenhamos, não vai se alterar realmente só porque condenados não podem se candidatar), seja um problema adicional para a qualidade do governo representativo. Mas desconfio também que não se desenhem instituições e iniciativas democráticas sérias sem que se acredite no discernimento do “demos”, isto é, “deles”, dos “outros”, enquanto capazes de conduzir a comunidade política em que estamos. Ou será que, no fundo, “nós” somos na verdade aristocratas incomodados porque a decisão política foi transferida para o povo, tão tolo e tão menos que “nós”?
Como explicar eleições, em dois modelos.
Gosto de dois modelos teórico-metodológicos interessantes para se pensar eleições do ponto de vista da comunicação política. O primeiro é a teoria dos mercados eleitorais. Não é uma teoria nem nada, mas umas hipóteses integradas que acredito que possam ser empregadas de forma bastante fecunda para explicar as ( quase sempre realmente inexplicáveis) decisões eleitorais. Para a abordagem funcionar, você tem que imaginar o eleitor é um consumidor num mercado (não falei supermercado, tá?
).Os produtos disponíveis ao consumo aqui são agendas, atores, programas, ideias. Agendas, atores etc. de natureza política, claro. O consumidor tem, ao fim e ao cabo, que escolher uma barraca, e apenas uma, onde comprar a sua cesta de produtos. Naturalmente, o consumidor gosta de várias coisas, embora tenha as suas preferências, além de, tendencialmente, gostar de certas marcas e sabores. Alguns consumidores entram no mercado sabendo exatamente o que querem consumir, dão uma olhadinha nas outras ofertas, mas se encaminham diretamente para o estande onde está o que querem. Outros, sabem do que gostam e preferem, mas estão abertos a experimentar e serem convencidos. Outros ainda, durante a maior parte do tempo estarão “só olhando”, e só decidirão (se decidirem) quando o mercado estiver para fechar.
No modelo do mercado eleitoral (MME), o consumidor tem o poder de decidir, mas quando ele chega na cena, os estandes, barracas ou gôndolas já estão montados. Caberá a cada vendedor tentar convencer a clientela sobre as qualidades do seu produto (ou sobre os defeitos dos produtos da concorrência).
O segundo modelo é o da distribuição horizontal dos votos. Imagine uma linha horizontal e distribua o universo dos eleitores por um determinado segmento de reta. A linha pode ser organizada segundo variadas clivagens, cada uma das extremidades (ou pólos) representando um valor. Uma forma tradicional é colocar num pólo os liberais, e os conservadores noutros. Uma adaptação é fazer as contraposições entre direita e esquerda.
De qualquer modo, é preciso imaginar que a distribuição do montante de votos pelo segmento não será homogênea – sempre haverá uma maior concentração no centro, de forma que os extremos serão sempre rarefeitos. Assim, se os pólos forem esquerda vs. direita, haverá sempre mais votos no centro e uma menor quantidade deles na extremidades das alas. Desse modo, prosições mais nítidamente de esquerda e mais consistentemente de direita (“radicais”) serão terão menos votos do que as posições mais nuançadas do centro. Neste quadro, o princípio Schumpeter-Downs vai prever que as posições políticas que alcançarem primeiro (e segurarem, claro!) os eleitores do centro numa competição elitoral fatalmente ganharão a eleição.
O modelo da distribuição horizontal (MDH) supõe, naturalmente, ao contrário do primeiro modelo, que os eleitores já estão em cena quando as propostas, agendas e atores políticos chegam. O eleitor ainda tem o poder de decisão, claro, e a oferta política é que precisa ser adaptadas às suas demandas já dadas e identificadas – a oferta precisa ser “customizada”.
O modelo pode ser melhorado e atualizado se imaginarmos que a clivagem “polar” não seja simplesmente entre “esquerda” e “direita” ou “liberais” e “conservadores”, mas entre agendas. Certas agendas, que dependem de uma hipercoerência e de uma superconsistência ideológica, são necessariamente polares – como acontece, por exemplo, como certas agendas “típicas” de liberais (ex. assistência social) e de conservadores (ex. posse privada de armas), ou da esquerda (ex. distribuição de renda ou reforma agrária) e da direita (ex. segurança nacional). Outras agendas, sobre as quais não está estabelecido um amplo consenso nacional, também tendem a se colocar perto das extremidades da linha, nos seus pontos com menor concentração de votos (ex. aborto e controle de natalidade, beneficiamento de urânio para fins energéticos). Outras, ao contrário, são agendas compartilhadas por uma grande parte da população (ex. a “questão social”, que deu duas eleições a Lula, o “controle da inflação” + “ajuste das contas públicas”, que havia dado mais duas a Fernando Henrique Cardoso, a “modernização da economia e do Estado” + “correção da moralidade dos agentes do Estado” que fez uma eleição surpreendentemente cair ao colo de Collor (perdão) de Melo).
Estas agendas de amplo consenso, não estão necessáriamente dadas. Às vezes, sim (ex. quem vai ousar tirar “segurança pública” da agenda deste campeonato eleitoral?). Na maior parte das vezes, precisa ser construída.
O MDH explicaria melhor do que o MME porque, por exemplo, posições com agendas muito interessantes e avançadas, além de sustentadas por atores de cuja qualidade não se duvida, não conseguem avançar eleitoralmente. Aconteceu com Cristóvam Buarque e a sua obsessão por “educação básica” e muito provavelmente acontecerá com Marina Silva com a sua agenda ambiental, se alguma providência não for tomada. Mas o MME explica a produção dos consensos sobre certas agendas ou, se preferirmos, como certas agendas se deslocam para o centro do “dial eleitoral”. A agenda ambiental, por exemplo, não atrairia mais que uma Kombi de eleitores, há, digamos, trinta anos. Hoje alcançaria uns 10 ou (a depender das outras agendas em disputa) 15% no Brasil – na Suécia, como todo mundo gosta de dizer, certamente mais. Não bastará para eleger Marina Silva no Brasil, ou alguém presidente dos Estados Unidos, mas é óbvio tratar-se de uma agenda sobre a qual se estabelece crescente consenso. Foi trabalhando na sua barraca eleitoral que FHC convenceu os eleitores que ainda não era hora de consumir a “questão social”, que a agenda do momento tinha que ser o controle da inflação – e Lula, que apostara todas as suas fichas na questão da desigualdade econômica, dançou. Ele precisou perder ainda mais uma eleição para convencer os eleitores que era chegada a hora de enfrentar a “questão social” brasileira e que ele era o ator talhado para o papel. E deu certo.
Por enquanto, as eleições podem ser descritas usando os dois modelos. Usando-se o MME se pode ver que dois candidatos têm enormes estabelecimentos no mercado central eleitoral do Brasil, onde se pode consumir de mortadela a cocada & caviar, enquanto uma candidata tem um box modesto com um produto que ela assegura, certificados na mão, ser de ”de qualidade” e “procedência”. Usando-se o MDH veremos dois atores disputando praticamente a mesma agenda consensual (“questão social”+”responsabilidade fiscal”+”desenvolvimento econômico”), além do varejo. Nenhum quer arriscar uma agenda nova, porque é mais fácil e prudente ficar numa agenda sobre a qual há grande consenso social e, no fundo, não pedem aos eleitores para escolher uma agenda (aparentemente, as campanhas já a dão como escolhida), mas para escolher um ator. Por outro lado, a única agenda nova no cenário (“desenvolvimento sustentável/sustentado”) ainda está muito longe do centro da demografia eleitoral.
Acho que Marina Silva chega perto de se dar conta disso, porque nas últimas semanas declara monotonamente não ser monotemática. Afinal, diz, a agenda ambiental perpassa tudo. Ora, educação também, mas dá uma olhada em qual foi o percentual de voto de Cristovam Buarque na última eleição! Marina Silva não tem escolha, se quiser ser viável eleitoralmente, a não ser acrescentar à sua agenda polar alguma agenda central. O que equivaleria a fazer como já o fazem Dilma Rousseff e José Serra, isto é, se apresentar como mais um ator para o papel em disputa, que é o da sustentação da agenda predominante no cenário deste ano. O problema é que, aparentemente, Rousseff e Serra já ocuparam este lugar. Cabe mais um? E como compatibilizar uma agenda polar com uma agenda central num discurso eleitoral? Mas não. Eu acho que a estão convencendo de que ainda é possível atrair público para a sua monoagenda, de forma que até as eleições, querendo Deus, ela se torne uma agenda central. Como se diz na Bahia: Creia! Eu, não. Mas vamos esperar.
Partidos ideológicos vs. partidos pragmáticos
… mas voltando ao lamento comum pela perda da “pegada” ideológica dos partidos, o que dizer a propósito? O que seria um partido ideológico neste quadro? Imagino que por meio da expressão “ideologia” se queira referir a um conjunto de representações compartilhadas por um corpo coletivo. São representações coletivamente compartilhadas sobre a realidade política, o Estado, a comunidade política, mas representações fundadas em princípios e valores igualmente condivididos pelo grupo. A esse conjunto cognitivo/axiológico estão associados, ademais, projetos, perspectivas, agendas, compreensões sobre a natureza humana e tudo o mais que sirva para a formação de um ethos especifico e uma identidade social (o “nós” versus “os outros”).
Nesta moldura, um partido ideológico seria aquele dotado de uma identidade social bem demarcada e estabelecida em função de um intenso compartilhamento de princípios, valores, projetos e agendas. Ele teria uma identidade nítida (pode ser identificado ou “isolado” no conjunto); esta identidade seria compartilhada com grande entrega (compromisso, engajamento, commitment) por parte dos seus integrantes, políticos ou militantes; todo o coletivo se orienta em função de projetos e agendas também claras e precisas, por sua vez orientadas pelos princípios e valores do grupo.
Não vou perguntar, ainda, se tal partido existe ou pode ainda existir. Queria antes tentar identificar o que seria a contraparte semântica de um partido ideológico. Em português, um adjetivo tem sido muito usado recentemente para indicar o “outro” modelo de partido: “pragmático”. Mas o que seria pragmatismo, neste sentido? Me parece que a expressão vem sendo usada para caracterizar um certo tipo de comportamento de grupamentos políticos voltado para maximizar vantagens e minimizar perdas mediante negociações, barganhas e concessões. O “pragmatismo” político consiste em uma espécie de racionalidade instrumental (em Weber se falava de Zweckrationalität, ou de racionalidade orientada por um propósito ou meta).
Ora, se a equação estiver certa, então um partido “ideológico” seria aquele com identidade grupal forte, com altas quotas de engajamento e compromisso dos seus membros, com projetos e agendas fortemente vivenciados (projetos que valem a vida, para o militante), com um ethos político distinto, com valores e princípios (ainda que falsos ou ingênuos) a mover isso tudo. Por sua vez, um partido pragmático seria um grupamento político que se move para conseguir fins precisos e concretos (em geral, ganhar eleições, governar e exercer mandatos) por meio de comportamentos de alto teor estratégico orientados segundo cálculos dedicados á otimização dos lucros.
Com isso, chegamos ao lamento de que falava no post passado. Primeiro, ele se apóia numa espécie de etnografia da atualidade política. O PMDB já foi um ilustre partido ideológico, dizem, quando a ideologia consistia em resistir à brutalidade política e sustentar as esperanças de uma sociedade de direitos e liberdades. Depois da restauração da democracia, o partido se tornou, pouco a pouco, uma mera agência política, que a cada feira eleitoral oferece aos consumidores um conjunto de agentes prontos para o (e ávidos pelo) exercício de mandatos ou, pelo menos, de cargos no interior do Estado. O PSDB saiu do PMDB junto com a ideologia, reclamando que o tipo de recrutamento de políticos e o tipo de costume político que se vinham implantando neste último eram incompatíveis com princípios e valores dotados de qualquer coerência ideológica. O PSDB, então, foi ser “autêntico”, pequeno, intelectual, reserva moral no panorama político tristíssimo que se situa entre 1984 e o início da década seguinte – pelo menos -, onde a ditadura militar deu lugar não à democracia e à virtude política, mas a uma corrida de lobos e hienas contra o Estado e os seus recursos. Pois bem, quis o destino rir-se de tanta convicção ideológica quando, em 1994, o PSDB inaugura justamente o moderno pragmatismo político brasileiro, construindo uma aliança política, não com o PMDB, cepa de onde se originou, mas com o PFL, uma das bifurcações de um rio que, a montante, conduz diretamente à fonte que sustentou a brutalidade política da última ditadura deste pobre país. Um movimento moralmente surpreendente, mas taticamente eficaz. Assim, a ideologia tucana virou troféu de caça na casa do PFL, principalmente daquele de ACM, a quem FHC e companhia deram em sacrifício, para sacramentar o pacto, o PSDB baiano.
Foi assim que, em grande parte dos anos 1990, se dizia que o PT era o último grande partido ideológico no Brasil. Aliás, até parece que o conceito de “partido ideológico” foi moldado pensado neste partido, visto se encaixar tão bem no figurino, sob todos os pontos de vista. O petismo era uma identidade existencial e uma configuração física, uma fé e uma bandeira. Mas em 2002, enfarado de perder eleições no primeiro turno para o “pragmatismo” eleitoral do PSDB, Lula e o PT resolveram usar o modelo-PSDB contra o PSDB, trazendo para o próprio leito eleitoral PL, PP, PTB, partidos onde a ideologia nunca passou, nem para uma breve visita de cortesia. De lá pra cá, a história é por demais conhecida, de forma que posso poupar meus dois leitores da descrição das peripécias e desenlaces do PT em tempos de muito oportuno-pragmatismo e parca ideologia.
Claro que a história se repete, de forma autêntica ou como farsa, não sei, com a saída da PSOL, para presumivelmente proteger o carisma e a “chama autêntica” de um genuíno partido ideologizado de esquerda da banalização pragmática do PT. E é claro que alguns partidos políticos no panorama brasileiro, pequenos e monotemáticos, reivindicam, às vezes com considerável justiça, a sua identidade como partido ideológico.
Assim, as coisas: a ideologia que estava aqui o pragmatismo comeu! Mas e daí? Penso que duas perguntas merecem ainda a nossa atenção. Primeiro, é realista imaginar que partidos de alto teor ideológico e baixo teor pragmático possam ganhar eleições ou, pelo menos, eleições majoritárias? Segundo, e no mesmo diapasão, é evidente a alta eficácia eleitoral do modelo pragmático. Isso produziu uma situação política impensável no início dos anos 1980, no Brasil, a saber, que um dia dois partido da faixa centro-esquerda do espectro político obteriam uma hegemonia política de 20 anos (estou incluindo esta eleição, claro, que nem o Daime, que é Santo, conseguirá dar a Marina) – e sem um “challenger” sequer no horizonte. Ora, a eficácia não é produto de alguma alquimia eleitoral, mas a expressão da vontade popular. Em outros termos, o povo brasileiro tem decidido, há duas décadas quase, consumir ofertas eleitorais “pragmáticas” ao invés de ofertas “ideológicas”, pelo menos em âmbito nacional. Em todos os campeonatos eleitorais vencidos pelo PSDB ou pelo PT houve ofertas mais ideológicas, à esquerda e à direita, que foram rejeitadas. Então, isso não é simplesmente uma questão partidária, mas uma questão social. Como então imaginar que um partido, com interesses reais na conquista de mandatos majoritários, possa se oferecer ideologicamente para consumidores pragmáticos?
A ideologia morreu, viva a ideologia!
Toda véspera de campeonato eleitoral é a mesma coisa: jornalistas e outros membros dos setores intelectuais médios (=SIM) reclamam que os partidos não são mais ideológicos e sofrem com isso. Ainda mais depois que o PT “chegou ao poder” (fórmula-SIM que serve para transformar o ato normal de ganhar eleições em alguma coisa obscura e metafísica) e foi descoberto sob os lençóis com “bedfellows” que não não costumava freqüentar. Não existem mais ideologia na política, reclamam, tudo agora é “pragmatismo”.
Há de haver verdade nisso. Mas o que realmente quer dizer esta perda de ideologia por parte dos partidos?
Primeiro, uma digressão pessoal. Parece-me no mínimo curioso que a palavra “ideologia” tenha voltado a significar alguma coisa positiva. Sobretudo a uma perspectiva de esquerda. Afinal, foram Marx e Engels que inauguram, ali entre os anos 1830-1840, um significado extremamente negativo da expressão ideologia. Mais que isso: foram eles que colocaram o conceito de ideologia no vocabulário da filosofia política. Curiosamente, o primeiro artigo que publiquei na área de comunicação, em 1991, quando ainda era jovem e tolo, foi sobre o conceito de ideologia na tradição marxiana (de Marx, não do marxismo). O texto se chamava “O olhar oblíquo” e tentava demonstrar como da leitura das obras de Marx e Marx e Engels emergiam duas noções de ideologia. Na primeira, a ideologia era entendida como ”uma patologia teórica (uma espécie de doença hegeliana) que costuma atingir os pensadores demasiado imersos no próprio trabalho e cuja conseqüência direta é um delírio interpretativo no qual o doente acredita que as ideias, intuições, conceitos, teorias etc.são entidades autônomas, autógenas, autosuficientes e autofundantes”. Neste estado de loucura teórica, o delirante hegeliano acreditaria que as ideias causam ideias e que a história se explica com base na interação entre ideias. Medidas terapêuticas eficazes: ao paciente devem ser apresentadas as autênticas forças propulsoras do processo histórico, isto é, os os modos e as relações mateoriais da produção da vida (a ecnonomia). Evidentemente, a ideologia pode cessar apenas se se aceita o “princípio de realidade”: os fatos econômicos são lógica e epistemologicamente prioritários em relação aos fatos representacionais.
No segundo sentido de ideologia, esta é uma chave-hermenêutica “defeituosa, imprópria, incapaz de fornecer uma interpretação efetiva da história e da dialética em geral”. È a concepção idealista da história, óbvio. Em suma, ideologia é o hegelianismo e todo mundo (políticos, filósofoso, juristas) que caiu nas garras do idealismo sofre dela. O materialismo é a cura.
Em algum momento do século XX a ideologia passou a significar alguma coisa diferente. Talvez tenha sido a Sociologia do Conhecimento (Mannheim e companhia) a produzir a transfiguração, o fato é que o sentido cazuziano (“ideologia… eu quero uma pra viver”) foi se impondo lentamente.
E chegamos ao ponto de assistir ao lamento pelas chamadas “crise das ideologias”, que provocou muito frisson em seminários e coletâneas dos anos 1980 e 1990, além de render muito papo-cabeça nos ” Baixo Gávea” da vida, inclusive no famoso ” circuito 14 do Rio Vermelho” (me refiro ao percurso ex-tudo/pós-tudo/frança/borracharia onde se reúnem todos os quatorze intelectuais desta Soterópolis). No começo, as ideologias em crise eram os sistemas intelectuais do socialismo/comunismo e do liberalismo/capitalismo resultante das queda da contraposição binária, em virtude do esfacelamento do Leste Europeu, no final dos anos 1980. Depois, passou-se a atribuir uma carga existencial ao sentido de ideologia, de forma que a expressão passou a se referir àquilo que já se chamou “visão de mundo” (Weltanschauung). Trata-se de um conjunto de princípios, valores, perspectivas aos quais se adere existencialmente, como um projeto de vida. Um sujeito sem ideologia, nem que fosse uma errada, seria alguém à deriva, autocentrado, sem compromisso com qualquer norte coletivo. O fim da ideologia seria, então, o fim do homem generoso e altruísta, sacrificado no altar no hedonismo, do individualismo e do desengajamento das novas turbas do final de século. Na verdade, era uma geração que, a posteriori, olhava os seus verdes anos como aqueles de uma generosa entrega a sonhos que se sonham juntos, e, ao mesmo tempo, via no hedonismo da nova geração uma perda de autencidade e sentido. Hippies sociologizando yuppies, em suma.
Mas o que significa partidos ideológicos? Isto é assunto para um próximo posto.
A imolação de César Benjamin
Não sei quanto a vocês, mas eu fiquei muito impressionado com o artigo de César Benjamin sobre Lula publicado na Folha de São Paulo (27/12/2009). Ele escreve muito bem e o texto me capturou tanto por causa da qualidade da narrativa e em virtude da “carpintaria” de palavras quanto pelo que nele é narrado. Os fatos narrados são, na verdade, dois. No início é uma narrativa densa e paradoxalmente lírica na forma, sobre um menino (o próprio Benjamin), preso e torturado pela ditadura militar brasileira. Uma dessas memórias que, além do mérito literário, que não dispenso, tem o valor político e humanitário de atiçar em nossas mentes e afeto a lembrança da brutalidade de fatos ainda tão recentes e já tão distantes. Não temos o direito de esquecer! De repente, o texto corta (no sentido cinematográfico mesmo) para a narrativa de uma conversa com Lula num roda privada. Nela, o então candidato à presidência conta como, em estado de abstinência sexual nos seus dias de prisão, teria tentado conseguir satisfação dos seus ímpetos viris servindo-se de outro menino, seu companheiro de cárcere. Uso esses termos porque sou um sujeito de boa catadura (sic!), mas a ”ipsissima verba” lulista reproduzida pela memória de Benjamim é crua e vulgar.
Tomei um susto! Da brutalidade dos torturadores do DOPS o texto me catapultou para a brutalidade de Lula. Do susto ao desgosto, ao incômodo, às perguntas. Este foi o meu percurso íntimo diante da narrativa de Bejamin.
Praticamente já se passou uma semana desde então. Vieram desmentidos, comentários, as testemunhas declararam que não lembravam do fato ou que teria sido uma bravata privata de machos clássicos, de que Lula é pródigo, quando reunidos em pequenos rebanhos. A assessoria do presidente declarou ser tudo uma loucura e que ele teria ficado triste.
Ontem, 2/12/2009, César Benjamim publica na mesma Folha um outro artigo respondendo a uma pergunta que é minha e de tantos como eu – que nem somos lulistas tatuados (que gritaram por “desagravo e maldições!”) nem dedicamos a Lula ódio e desejos de morte (estes brandiram nas cartas de leitores sibilinos “eu já sabia!”). Acho os lulistas extremos tolos e desinformados e os antilulistas militantes algo fascistas. O artigo enfrentava, em suma, ao problema do ”porque só agora” César Benjamin resolveu trazer à cena pública uma narrativa, emoldurada por uma narração sobre tortura e humilhação nos cárceres da ditadura, onde Lula aparece em vestes de pedófilo, machista e, enfim, como alguém que se aproveitaria sexualmente dos mais fracos, como macho alfa de programas do Animal Planet.
O argumento de Benjamin me decepcionou. Não por culpa dele, claro, que não tem obrigação alguma de satisfazer as expectativas que eu fabrico. É que eu imaginava razões nobres e complexas, tal foi a minha adesão simpática ao personagem que Benjamin construiu para si na sua narrativa (em contraste com o “character” de Lula, tornado equivalente aos brutos). Mas, não. Benjamin me revela que me contou esse “podre” de Lula por causa de Lula, o Filho do Brasil, que ele nem viu nem gostou, como quase todo mundo. Nesse caso, engancha ao seu argumento a percepção mais comum nesses dias dentre os “formadores de opinião”: o filme de Fábio Barreto teria recebido toda a sorte de apoios, por meios côncavos e convexos, do governo federal e da sua network de influências. Se isso aconteceu é porque o propósito seria produzir e disseminar o culto à imagem e biografia de Lula.
Pode haver alguma coisa de verdadeira nesta percepção. Há, contudo, um argumento derivado ao qual me parece faltar alguma coisa: isso tudo teria propósito eleitoral. Como, ao que me resulta, Lula não é candidato, por que diabos um filme sobre a sua biografia seria decisivo eleitoralmente? Não seria melhor fazer um filme sobre a Sra. Rousseff? Se a questão for transferência de foto, também nesse caso a propaganda me parece um desperdício. Vejam a pesquisa de 23/11/09 da CNT/Sensus. Perguntados “O Sr(a) votaria ou não votaria no do candidato a Presidente da República apoiado pelo presidente Lula” 20% dos brasileiros disseram que só votariam num candidato apoiado por Lula. Somem-se a isso 31,6% que disseram que poderiam votar nesse candidato de Lula, sim. E mais 27% que disseram que poderiam votar em tal ungido, sim, mas precisaria saber, primeiro, quem ele é . Ora, gostemos disso ou não, os dados indicam que Lula não precisa de filmes para transferir votos.
Mas o que quer César Benjamin contando o “podre” de Lula? Aparentemente, proteger o tão vulnerável povo brasileiro, que, ao apreciar a narrativa sentimental e destinada ao culto de Barreto, estaria pronto a erguer altares, cantar loas e hinos e a votar, em massa, no nosso Herói ou em que ele mais indicar. Benjamin lembra Cinema Paradiso e fala do propósito luliano (expressão minha para designar os doutrinários do lulismo) de reativar cinemas do interior (retomando-os da Igreja Universal?) para a exibição da Saga do nosso Líder? Por isso, reduzir Lula a um padrão “humano, demasiado humano” é um papel pedagógico a que Benjamin se dedicou com afinco, levando a tarefa tão a sério a ponto de revelar nas folhas dos jornais coisas que, segundo ele mesmo, nunca se permitiu contar. Benjamin está tão convencido da sua atividade de pedagogia moral e política que a narra em chave sacerdotal. De fato, termina o seu artigo de ontem na Folha em terminologia teológica: “Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa”. O itálico é dele. Naturalmente, é melhor deixar, claro que se trata, na versão dele, de autoimolação e não de imolação de Lula e sua imagem – é ele quem se dá em sacrifício por amor e em lugar dos outros (que é o sentido teológico de imolar, se bem me lembro).
Pois bem, todo esse barulho foi para proteger os pobres, o órfão e a viúva do Barretão. Está explicado, então. É mais uma aparição do que a teoria da comunicação chama de “third-person effect” na explicação da relação entre comunicação/cultura de massa e política. Esse modelo diz que, um filme, por exemplo, não produz muito efeito sobre mim, porque eu sou crítico e sagaz, mas que exerce um enorme efeito sobre os outros, que são vulneráveis. No caso brasileiro, temos os nossos “estoques” de vulneráveis prontos para o uso: “os pobres”, antes de tudo, mas também os “nordestinos”, os “habitantes dos grotões” e outros que tais. Como eles são vulneráveis, nós, os críticos, precisamos protegê-los dos filmes. Um caminho é censurá-los, outro é o caminho pedagógico: para proteger os pobres preciso lhes revelar a verdade, que eu sei e eles não. Os jornalistas, que são um laboratório desse modelo, nos revelam o que está “por trás” do filme, caso contrário nenhum de nós seria capaz de entender. E César Benjamin completa a obra nos contando um podre de Lula, vacina iconoclasta contra o culto à personalidade que assolaria os pobres, as criancinhas, as viúvas… Ufa! Ainda bem!
Um centro de pesquisas sobre democracia e internet
Em 2010, a UFBA terá um centro de pesquisas, novinho em folha, para estudar o impacto das tencologias digitais de comunicação sobre a democracia e sobre o governo. Ou o meios e modos de se empregar tecnologias digitais para se reforçar ou reparar a democracia e para se produzir uma governança mais democrática. Dá no mesmo.
Todo mundo sabe que o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, que completará vinte anos também em 2010, tem uma considerável capacidade de pesquisa instalada na área de internet e impactos socio-culturais das novas tecnologias de comunicação. Além de outra, igualmente reconhecida, na área de comunicação e política. Essas duas linhas de pesquisa atraem alunos do Brasil inteiro interessados em fazer dissertações ou teses sob a orientação de André Lemos, Marcos Palácios, Othon Jambeiro, deste escriba e de tantos outros colegas. Mas um centro de pesquisas de ponta, situado na confluência das duas linhas de pesquisa é um sonho que se começou a sonhar há bem pouco. Na verdade, começou no jantar de confraternização do PPG no final de 2008, quando, por acaso, sentei ao lado de Othon Jambeiro. Do sonho à mobilização dos pesquisadores, daí à realização dos projetos e, enfim, ao dinheiro, foi tudo incrivelmente rápido. Sinal dos tempos. Foram quatro projetos, para quatro editais de quatro diferentes agências, produzidos e submetidos entre fevereiro e setembro. Aliás, quatro dos editais mais difíceis, porque disputados a velas pandas pela elite do campo científico brasileiro.
Em fevereiro, ainda nas férias, a correria para encarar o ProInfra da FINEP, o único edital para construção de estrutura física que ainda temos no Brasil, disputado com tudo pela pró-reitorias porque é a única fonte de recurso para construir e consertar prédios. Lá pela metade do ano, o PNPD (Programa Nacional de Pós-Doutorado) – linha Capes, uma novidade no panorama. Esse te dá recursos humanos para tocar projetos, na forma de jovens doutores com bolsas de até cinco anos. Disputadíssimo. Afinal, quem não quer um dois doutores jovens e altamente produtivos tocando os laboratórios? Em seguida, Edital Universal, CNPq com dinheiro dos fundos setoriais, que é universal porque todas as áreas disputam entre si. Por fim, em setembro, o PRONEX, Programa de Núcleos de Excelência, Fapesb/CNPq. Um edital chato, cheio de papelada, e com exigências difíceis de cumprir (um caminhão de pesquisadores 1 do CNPq, inclusive algum da Bahia, fora da UFBA).
Depois, muita espera e muita inquietação: ganhar a infra-estrutura física, mas sem grana para as máquinas, os móveis e os equipamentos, não adiantaria muito. Nem o contrário. Se tivéssemos os novos doutores, mas sem ter onde acomodá-los e sem equipamento, tampouco serviria. E vice-versa. Mas foi um ano perfeito! Ganhamos todos, um a um, num espaço de seis meses. R$ 426.000 para construir um prédio, dois (o máximo) jovens doutores para levar adiante os projetos e, de quebra, R$ 72.000,00 para custeio, R$ 35.000 para equipamentos do Universal e R$ 775.000,00 do Pronex para instalações, todas máquinas, laboratórios e serviços básicos. Enfim, ganhamos no total R$ 1.546.082,00. Muito além dos sonhos mais otimistas. Acho que mesmo tirando os R$ 82,00, que pretendo gastar em cerveja e caranguejos (é brincadeira, TCU!), o que sobra dá para fazer um centrinho de pesquisas danado de bom. É assim que em 2010, depois de vinte anos ralando na UFBA e no sistema nacional de pós-graduação, acho que vou ver surgir, ao lado da Facom, o Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital e Governo Eletrônico. Toda ajuda será bem-vinda.
Sobre vestidos e cérebros. Ambos curtos.
Criticar as recentes brutalidades da Uniban é a nova onda. Com justiça. Hoje na Facom (UFBa), contudo, havia um cartaz a este respeito que me fez pensar. O cartaz, fixado na parede do Centro Acadêmico, fazia o seu desagravo mais ou menos nestes termos: “Vestido curto pode, o que não pode é cérebro curto”. Simpática a ideia. Acho que os autores queriam dizer que não importa o tamanho do seu vestido, importa sim a sua inteligência. Justo. Mas a frase não diz isso - provavelmente em virtude do demoníaco descolamento entre o que se quer e o que se consegue dizer. Tentanto defender a liberdade do vestido, o texto desfere uma ataque contra a burrice. Com a minha mania de duvidar de tudo, não vejo problema em admitir que vestido curto pode, mas por que “cérebro curto” não pode? E fiquei cá comigo matutando que nesses tempos de Direitos Humanos, respeito às minorias e às liberdades, a democracia correndo solta como valor universal, todo mundo defende todas as minorias. Menos aquela dos “cérebros curtos”. Como se a burrice fosse alguma culpa ou defeito moral, declarar horror a déficits da inteligência (a alheia, claro) é afetação impune e tranquilamente compartilhada. Sobretudo entre os sublimes e os bem-pensantes. Sempre desconfiei que os muito inteligentes (e até os mais ou menos inteligentes que se julgam brilhantes) são particularmente cruéis com os outros. Dizer “não suporto gente do tipo x” é algo socialmente inconveniente (desde que x esteja para signos como “gorda”, “branca”, “do terceiro mundo”, “heterossexual” sei lá); exceto quanto se trata de “burrice”. Detestar gente burra pode. Dos intelectualmente limitados se pode livremente ter horror. Sempre me diverti com as declarações femininas (homem é básico, não conta) sobre critérios de escolha de homens. Mesmo em Nova/Cosmopolitan, para a qual a mulher moderna quer sim um homem com corpo lindo e jovem, no topo dos requisitos está a inteligência. Algumas até afirmam que não fazem questão de beleza, mas que a inteligência, em um homem é essencial. Ora, pois! Eu não descreio dessas coisas, mas é que algumas dessas declarantes me pareceram, algumas vezes ao menos, consideravelmente parvas. Ora, não seria preciso ter inteligência abundante para se descobrir a inteligência que abunda nos candidatos a parceiros amorosos? É que comparações só podem ser feitas se tivermos parâmetros, não é não? A depender do parâmetro adotado a discriminação anti-burrice iria produzir efeitos infernais. Adotando-se um bom parâmetro, por exemplo, se uma campainha disparasse cada vez que um cérebro mais curto entrasse numa faculdade, provavelmente nunca se conseguiria ter silêncio suficiente para uma aula. Se a campanhia fosse colocada no centro das cidades ninguém conseguiria mais dormir. Então, talvez, o discurso anti-desinteligência não seja sobre os outros, afinal, mas sobre nós mesmos (pois claro, burros são sempre e só os outros). No fundo queremos nos distinguir dos demais, afirmando de nós e negando deles algo que é extremamente valorizado: a inteligência. Afetar desprezo pelos menos inteligentes é, no fundo, querer ser integrado ao clube dos sabidos, dos inteligentes, dos brilhantes ou, até, quem sabe, dos geniais. O que não é uma ideia brilhante, pois se o parâmetro para a atribuição da valor é completamente privado e subjetivo, a rigor o atributo da inteligência autodeclarada não distingue ninguém. E as pessoas de quem gostamos muito sempre as vemos particularmente inteligentes (sempre desconfiei que o amor mais produz a inteligência do amado do que é produzido por ela, ao contrário do que dizemos). Mais vale então afirmar que tanto faz a dimensão do seu cérebro ou do seu vestido, desde que voce seja uma pessoa que preste. O que distingue um ser humano é ainda e tão-somente o que ele faz com a suas circunstâncias.
A esfera pública não existe… mas dá um medo.
Fácil, fácil tem se desqualificado, em certos meios acadêmicos, a noção de esfera pública. Não se põe em dúvida se em toda sociedade contemporânea exista ou não discussão pública sobre assuntos de toda natureza, inclusive assuntos políticos. Mas se duvida frqüente sobre se fora da livre-discussão exista algo mais relevante politicamente.
A noção mais madura de esfera pública supõe a existência de discussão em público, pelo público e apoiada em razões públicas. Supõe, ademais, que este seja o meio fundamental através do qual se formam a opinião pública e a vontade coletiva. Admite, enfim, que são pré-condições para a sua existência, além dos requisitos básicos de visibilidade e acessibilidade (como poderia ser pública uma discussão secreta?), requerimentos fundamentais de liberdade de expressão, opinião, consciência etc., além da interdição da intromissão decisiva de qualquer outro “poder” (dinheiro ou força) que nao seja o do melhor argumento.
Pois bem, dizem os “realistas”, haveria ideia mais ingenua ou realidade mais inútil? Deixemos de lado a presumida ingenuidade, por enquanto, para lidar com a “inutilidade”. O argumento é seguinte: a esfera da discussão pública é inútil porque nao tem poder deliberativo, ou porque, quando deliberativa não tem poder vinculante. Não é deliberativa, de fato, na maior parte das vezes. A decisão política, em governos representativos, está reservada em sua maior parte para os sistemas legislativos e judiciários do Estado. Ou para o Executivo, em certos casos. A esfera civil pode discutir o quanto queira, mas nao decide nada. No máximo, produz opinião pública: temas correntes, agendas socialmente compartilhadas, quadros interpretativos da atualidade… E para que serve a opinião pública, afinal, se não produz lei e não obriga ninguém? Não aconteceu de haver, há poucas semanas, um parlamentar brasileiro que bradava, com orgulho genuíno e para os soundbites dos jornais do horário nobre, ”não tenho medo da opinião pública”?
Ora, tenho um exemplo da atualidade política que cria um paradoxo para esta tese. Se a esfera pública é inútil e inócua, porque ela apavora tanto os regimes autocráticos ou de baixa convicção democrática. Vejam o caso do Sr. Micheletti em Honduras e da rápida decisão de impedir os insumos básicos para a existência de uma esfera pública naquele país, neste momento, por meio de estado de sítio, da imposição de toque de recolher e da censura a meios de comunicação. Além de outros requerimentos que a estes estão consorciados, pois, afinal, liberdade de publicação e liberdade de reunião são um estorvo para qualquer autocracia porque o seu emprego resulta, geralmente, na prática da divergência argumentada.
Dentre as trezentas definições possíveis de democracia, considere-se também esta: democracia é o sistema em que a esfera civil pode divergir do governo. E os cidadãos devem poder publicar esta divergência, apresentá-la aos outros, para também tentar convencê-los a divergir. E neste patamar recuperamos as noções de esfera e opinião pública. A esfera pública é o meio fundamental da produção do atrito de pensamento, da divergência argumentada , da tentativa de convencimento não submetida a qualquer autoridade senão àquela do melhor argumento e das melhores evidências. A opinião pública só pode resultar desta troca pública de razões e é ela mesma simplesmente a condensação dos fluxos de opinião particulares. Numa esfera pública, divergir de quem governa é natural; e a opinião pública pode a ser materialização e a coletivização desta divergência.
Fosse a esfera pública inútil e inócua (de fato, não faz leis; os legisladores as fazem) por que os autocratas ou candidatos a tanto, de Honduras ou Venezuela, nem titubeiam ao atacar as condições de possibilidade do funcionamento da sua existência? Então, a esfera pública é como a bruxa da piada espanhola: não existe, mas que “las hay, las hay”? Se não existe, por que assombra tanto os autocratas ao ponto de que queiram abrigar a prórpia autoridade longe do seu alcance?
Em suma, a esfera civil não delibera, não legisla, não governa. O único que aparentemente pode fazer nos sistemas do governo representativo é divergir de quem governa e legisla. E isso assusta tanto… Que bom!
Quem está online?
Nas últimas semanas, duas fontes diferentes de dados ofereceram informações sobre inserção digital, tomando os domicílios (ou famílias) como referência. No Brasil, tão carente de dados sobre o uso de tecnologias de comunicação, o PNAD/IBGE (http://www.ibge.gov.br ) repetiu a sua sondagem anual sobre domícilios com microcomputadores e domicílios com acesso à Internet.
O percentual médio nacional de domicílios com computadores em 2008 é de 31,2%. Em 2007 era de 26,5%. Um bom avanço, certamente, mas o fato é que nem 1/3 das famílias brasileiras tem acesso doméstico à internet. Se pensarmos que, para o nosso horror, 21% dos brasileiros (31,6% dos nordestinos) acima de 15 anos são ainda analfabetos funcionais em 2008 (dado do mesmo PNAD), o dado anterior é até surpreendente. No bom sentido.
Por falar em nordeste, a taxa de lares com computadores é de apenas 15,7%; contra 40% do sudeste. E o fosso está aumentando, porque os dados de 2007 davam 12,2% contra 34,8%.
No que se refere a acesso à internet (fixa), o percentual de famílias brasileiras com conexão doméstica em 2008 é de 23,8%. Não chega a 1/4 dos domicílios. Na Itália, o país com menor inserção dentre as maiores economias da Europa, são 42%; na Espanha, 51%, na França são 62%, no Reino Unido são 71% e na Alemanha são 75% (Os dados para a Europa são da Comissão Européia – DG Information Society). No nordeste são 11,6%, contra 31,5% do sudeste. Ou seja, nem no “avançado”sudeste alcançamos um padrão avançado de conexão à internet. E os dados nordestinos nos apresentam a fria realidade do nosso etiopismo digital (sem querer ofender os habitantes daquele nobre país, por favor).
Os dados da Itália estão num relatório do “Osservatorio Italia Digitale 2.0″ da Confindustria/Presidenza del Consiglio dei Ministri (http://www.confindustriasi.it/). Os dados são bem mais detalhados que os do PNAD. Descobre, por exemplo, que “apenas 47% da população entre 15 e 74 anos (21,6 milhões em 2008) têm acesso via internet aos serviços disponíveis on-line”. Pouco para uma democracia digital extensa. Por outro lado, 28% dos italianos já estão com internet móvel, embora só homens de negócios e estudantes de fato sejam usuários dessas coisas andrelemosianas.
O mais interessante da pesquisa italiana, contudo, está numa taxonomia. Classificam-se as famílias italianas em “não-alfabetizadas no uso das tecnologias de comunicação” (família em que nenhum membro sabe usar um PC), “alfabetizadas” (famílias com membros que utitilizam computadores, mas sem internet) e “Internet” (famílias com usuários da internet). Na pesquisa deles, em 2009, 38% das famílias italianas são analfabetas tecnológicos, 17% são alfabetizadas tecnológicas mas não em internet e 45% são conectados.
A conclusão é interessante e ajudaria a pensar no caso brasileiro: Cerca de metade da população se esforça para superar a primeira fase do “acesso à rede”, enquanto a outra metade está progredido para uma nova fase, web 2.0 e baseada em banda larga e tecnologias móveis. No Brasil, não deve ser diferente, exceto na proporção da elite digital, ainda menor que na Itália. Aparentemente, no mundo digital não existe “classe média” – ou se está enrascado no etiopismo tecnológico ou se está voando para os píncaros da conexão móvel.
