A imolação de César Benjamin

Não sei quanto a vocês, mas eu fiquei muito impressionado com o artigo de César Benjamin sobre Lula publicado na Folha de São Paulo (27/12/2009). Ele escreve muito bem e o texto me capturou tanto por causa da qualidade da narrativa e em virtude da “carpintaria” de palavras quanto pelo que nele é narrado. Os fatos narrados são, na verdade, dois. No início é uma narrativa densa e paradoxalmente lírica na forma, sobre um menino (o próprio Benjamin), preso e torturado pela ditadura militar brasileira. Uma dessas memórias que, além do mérito literário, que não dispenso, tem o valor político e humanitário de atiçar em nossas mentes e afeto a lembrança da brutalidade de fatos ainda tão recentes e já tão distantes. Não temos o direito de esquecer! De repente, o texto corta (no sentido cinematográfico mesmo) para a narrativa de uma conversa com Lula num roda privada. Nela, o então candidato à presidência conta como, em estado de abstinência sexual nos seus dias de prisão, teria tentado conseguir satisfação dos seus ímpetos viris servindo-se de outro menino, seu companheiro de cárcere. Uso esses termos porque sou um sujeito de boa catadura (sic!), mas a ”ipsissima verba” lulista reproduzida pela memória de Benjamim é crua e vulgar.

Tomei um susto! Da brutalidade dos torturadores do DOPS o texto me catapultou para a brutalidade de Lula. Do susto ao desgosto, ao incômodo, às perguntas. Este foi o meu percurso íntimo diante da narrativa de Bejamin.

Praticamente já se passou uma semana desde então. Vieram desmentidos, comentários, as testemunhas declararam que não lembravam do fato ou que teria sido uma bravata privata de machos clássicos, de que Lula é pródigo, quando reunidos em pequenos rebanhos. A assessoria do presidente declarou ser tudo uma loucura e que ele teria ficado triste.

Ontem, 2/12/2009, César Benjamim publica na mesma Folha um outro artigo respondendo a uma pergunta que é minha e de tantos como eu – que nem somos lulistas tatuados (que gritaram por “desagravo e maldições!”) nem dedicamos a Lula ódio e desejos de morte (estes brandiram nas cartas de leitores sibilinos “eu já sabia!”). Acho os lulistas extremos tolos e desinformados e os antilulistas militantes algo fascistas. O artigo enfrentava, em suma, ao problema do ”porque só agora” César Benjamin resolveu trazer à cena pública uma narrativa, emoldurada por uma narração sobre tortura e humilhação nos cárceres da ditadura, onde Lula aparece em vestes de pedófilo, machista e, enfim, como alguém que se aproveitaria sexualmente dos mais fracos, como macho alfa de programas do Animal Planet.

O argumento de Benjamin me decepcionou. Não por culpa dele, claro, que não tem obrigação alguma de satisfazer as expectativas que eu fabrico. É que eu imaginava razões nobres e complexas, tal foi a minha adesão simpática ao personagem que Benjamin construiu para si na sua narrativa (em contraste com o “character” de Lula, tornado equivalente aos brutos). Mas, não. Benjamin me revela que me contou esse “podre” de Lula por causa de Lula, o Filho do Brasil, que ele nem viu nem gostou, como quase todo mundo. Nesse caso, engancha ao seu argumento a percepção mais comum nesses dias dentre os “formadores de opinião”: o filme de Fábio Barreto teria recebido toda a sorte de apoios, por meios côncavos e convexos, do governo federal e da sua network de influências. Se isso aconteceu é porque o propósito seria produzir e disseminar o culto à imagem e biografia de Lula.

Pode haver alguma coisa de verdadeira nesta percepção. Há, contudo, um argumento derivado ao qual me parece faltar alguma coisa: isso tudo teria propósito eleitoral. Como, ao que me resulta, Lula não é candidato, por que diabos um filme sobre a sua biografia seria decisivo eleitoralmente? Não seria melhor fazer um filme sobre a Sra. Rousseff? Se a questão for transferência de foto, também nesse caso a propaganda me parece um desperdício. Vejam a pesquisa de 23/11/09 da CNT/Sensus. Perguntados “O Sr(a) votaria ou não votaria no do candidato a Presidente da República apoiado pelo presidente Lula” 20% dos brasileiros disseram que só votariam num candidato apoiado por Lula. Somem-se a isso 31,6% que disseram que poderiam votar nesse candidato de Lula, sim. E mais 27% que disseram que poderiam votar em tal ungido, sim, mas precisaria saber, primeiro, quem ele é . Ora, gostemos disso ou não, os dados indicam que Lula não precisa de filmes para transferir votos.

Mas o que quer César Benjamin contando o “podre” de Lula? Aparentemente, proteger o tão vulnerável povo brasileiro, que, ao apreciar a narrativa sentimental e destinada ao culto de Barreto, estaria pronto a erguer altares, cantar loas e hinos e a votar, em massa, no nosso Herói ou em que ele mais indicar. Benjamin lembra Cinema Paradiso e fala do propósito luliano (expressão minha para designar os doutrinários do lulismo) de reativar cinemas do interior (retomando-os da Igreja Universal?) para a exibição da Saga do nosso Líder? Por isso, reduzir Lula a um padrão “humano, demasiado humano” é um papel pedagógico a que Benjamin se dedicou com afinco, levando a tarefa tão a sério a ponto de revelar nas folhas dos jornais coisas que, segundo ele mesmo, nunca se permitiu contar. Benjamin está tão convencido da sua atividade de pedagogia moral e política que a narra em chave sacerdotal.  De fato, termina o seu artigo de ontem na Folha em terminologia teológica: “Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa”. O itálico é dele. Naturalmente, é melhor deixar, claro  que se trata, na versão dele, de autoimolação e não de imolação de Lula e sua imagem – é ele quem se dá em sacrifício por amor e em lugar dos outros (que é o sentido teológico de imolar, se bem me lembro).

Pois bem, todo esse barulho foi para proteger os pobres, o órfão e a viúva do Barretão. Está explicado, então. É mais uma aparição do que a teoria da comunicação chama de “third-person effect” na explicação da relação entre comunicação/cultura de massa e política. Esse modelo diz que, um filme, por exemplo, não produz muito efeito sobre mim, porque eu sou crítico e sagaz, mas que exerce um enorme efeito sobre os outros, que são vulneráveis. No caso brasileiro, temos os nossos “estoques” de vulneráveis prontos para o uso: “os pobres”, antes de tudo, mas também os “nordestinos”, os “habitantes dos grotões” e outros que tais. Como eles são vulneráveis, nós, os críticos, precisamos protegê-los dos filmes. Um caminho é censurá-los, outro é o caminho pedagógico: para proteger os pobres preciso lhes revelar a verdade, que eu sei e eles não. Os jornalistas, que são um laboratório desse modelo, nos revelam o que está “por trás” do filme, caso contrário nenhum de nós seria capaz de entender. E César Benjamin completa a obra nos contando um podre de Lula, vacina iconoclasta contra o culto à personalidade que assolaria os pobres, as criancinhas, as viúvas… Ufa! Ainda bem!

 

 

 

 

Cinema, Política, comportamento, costumes, esfera pública, opinião pública

Um centro de pesquisas sobre democracia e internet

Em 2010, a UFBA terá um centro de pesquisas, novinho em folha, para estudar  o impacto das tencologias digitais de comunicação sobre a democracia e sobre o governo. Ou o meios e modos de se empregar tecnologias digitais para se reforçar ou reparar a democracia e para se produzir uma governança mais democrática. Dá no mesmo.

Todo mundo sabe que o Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, que completará vinte anos também em 2010, tem uma considerável capacidade de pesquisa instalada na área de internet e impactos socio-culturais das novas tecnologias de comunicação. Além de outra, igualmente reconhecida, na área de comunicação e política. Essas duas linhas de pesquisa atraem alunos do Brasil inteiro interessados em fazer dissertações ou teses sob a orientação de André Lemos, Marcos Palácios, Othon Jambeiro, deste escriba e de tantos outros colegas. Mas um centro de pesquisas de ponta, situado na confluência das duas linhas de pesquisa é um sonho que se começou a sonhar há bem pouco. Na verdade, começou no jantar de confraternização do PPG no final de 2008, quando, por acaso, sentei ao lado de Othon Jambeiro. Do sonho à mobilização dos pesquisadores, daí à realização dos projetos e, enfim, ao dinheiro, foi tudo incrivelmente rápido. Sinal dos tempos. Foram quatro projetos, para quatro editais de quatro diferentes agências, produzidos e submetidos entre fevereiro e setembro. Aliás, quatro dos editais mais difíceis, porque disputados a velas pandas pela elite do campo científico brasileiro.

Em fevereiro, ainda nas férias, a correria para encarar o ProInfra da FINEP, o único edital para construção de estrutura física que ainda temos no Brasil, disputado com tudo pela pró-reitorias porque é a única fonte de recurso para construir e consertar prédios. Lá pela metade do ano, o PNPD (Programa Nacional de Pós-Doutorado) – linha Capes, uma novidade no panorama. Esse te dá recursos humanos para tocar projetos, na forma de jovens doutores com bolsas de até cinco anos. Disputadíssimo. Afinal, quem não quer um dois doutores jovens e altamente produtivos tocando os laboratórios? Em seguida, Edital Universal, CNPq com dinheiro dos fundos setoriais, que é universal porque todas as áreas disputam entre si. Por fim, em setembro, o PRONEX, Programa de Núcleos de Excelência, Fapesb/CNPq. Um edital chato, cheio de papelada, e com exigências difíceis de cumprir (um caminhão de pesquisadores 1 do CNPq, inclusive algum da Bahia, fora da UFBA). 

Depois, muita espera e muita inquietação: ganhar a infra-estrutura física, mas sem grana para as máquinas, os móveis e os equipamentos, não adiantaria muito. Nem o contrário. Se tivéssemos os novos doutores, mas sem ter onde acomodá-los e sem equipamento, tampouco serviria. E vice-versa.  Mas foi um ano perfeito! Ganhamos todos, um a um, num espaço de seis meses. R$ 426.000 para construir um prédio, dois (o máximo) jovens doutores para levar adiante os projetos e, de quebra, R$ 72.000,00 para custeio, R$ 35.000 para equipamentos do Universal e R$ 775.000,00 do Pronex para instalações, todas máquinas, laboratórios e serviços básicos. Enfim, ganhamos no total R$ 1.546.082,00. Muito além dos sonhos mais otimistas. Acho que mesmo tirando os R$ 82,00, que pretendo gastar em cerveja e caranguejos (é brincadeira, TCU!), o que sobra dá para fazer um centrinho de pesquisas danado de bom. É assim que em 2010, depois de vinte anos ralando na UFBA e no sistema nacional de pós-graduação, acho que vou ver surgir, ao lado da Facom, o Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital e Governo Eletrônico. Toda ajuda será bem-vinda.

Democracia digital, Inclusão digital, Internet, Política, esfera pública, teoria democrática

Sobre vestidos e cérebros. Ambos curtos.

Criticar as recentes brutalidades da Uniban é a nova onda. Com justiça. Hoje na Facom (UFBa), contudo, havia um cartaz a este respeito que me fez pensar. O cartaz, fixado na parede do Centro Acadêmico, fazia o seu desagravo mais ou menos nestes termos: “Vestido curto pode, o que não pode é cérebro curto”. Simpática a ideia. Acho que os autores queriam dizer que não importa o tamanho do seu vestido, importa sim a sua inteligência. Justo. Mas a frase não diz isso - provavelmente em virtude do demoníaco descolamento entre o que se quer e o que se consegue dizer. Tentanto defender a liberdade do vestido, o texto desfere uma ataque contra a burrice. Com a minha mania de duvidar de tudo, não vejo problema em admitir que vestido curto pode, mas por que “cérebro curto” não pode?  E fiquei cá comigo matutando que nesses tempos de Direitos Humanos, respeito às minorias e às liberdades, a democracia correndo solta como valor universal, todo mundo defende todas as minorias. Menos aquela dos “cérebros curtos”. Como se a burrice fosse alguma culpa ou defeito moral, declarar horror a déficits da inteligência (a alheia, claro) é afetação impune e tranquilamente compartilhada. Sobretudo entre os sublimes e os bem-pensantes. Sempre desconfiei que os muito inteligentes (e até os mais ou menos inteligentes que se julgam brilhantes) são particularmente cruéis com os outros. Dizer “não suporto gente do tipo x” é algo socialmente inconveniente (desde que x esteja para signos como “gorda”, “branca”, “do terceiro mundo”, “heterossexual” sei lá); exceto quanto se trata de “burrice”. Detestar gente burra pode. Dos intelectualmente limitados se pode livremente ter horror. Sempre me diverti com as declarações femininas (homem é básico, não conta) sobre critérios de escolha de homens. Mesmo em Nova/Cosmopolitan, para a qual a mulher moderna quer sim um homem com corpo lindo e jovem, no topo dos requisitos está a inteligência. Algumas até afirmam que não fazem questão de beleza, mas que a inteligência, em um homem é essencial. Ora, pois! Eu não descreio dessas coisas, mas é que algumas dessas declarantes me pareceram, algumas vezes ao menos, consideravelmente parvas. Ora, não seria preciso ter inteligência abundante para se descobrir a inteligência que abunda nos candidatos a parceiros amorosos? É que comparações só podem ser feitas se tivermos parâmetros, não é não? A depender do parâmetro adotado a discriminação anti-burrice iria produzir efeitos infernais. Adotando-se um bom parâmetro, por exemplo, se uma campainha disparasse cada vez que um cérebro mais curto entrasse numa faculdade, provavelmente nunca se conseguiria ter silêncio suficiente para uma aula. Se a campanhia fosse colocada no centro das cidades ninguém conseguiria mais dormir. Então, talvez, o discurso anti-desinteligência não seja sobre os outros, afinal, mas sobre nós mesmos (pois claro, burros são sempre e só os outros). No fundo queremos nos distinguir dos demais, afirmando de nós e negando deles algo que é extremamente valorizado: a inteligência. Afetar desprezo pelos menos inteligentes é, no fundo, querer ser integrado ao clube dos sabidos, dos inteligentes, dos brilhantes ou, até, quem sabe, dos geniais. O que não é uma ideia brilhante, pois se o parâmetro para a atribuição da valor é completamente privado e subjetivo, a rigor o atributo da inteligência autodeclarada não distingue ninguém. E as pessoas de quem gostamos muito sempre as vemos particularmente inteligentes (sempre desconfiei que o amor mais produz a inteligência do amado do que é produzido por ela, ao contrário do que dizemos). Mais vale então afirmar que tanto faz a dimensão do seu cérebro ou do seu vestido, desde que voce seja uma pessoa que preste. O que distingue um ser humano é ainda e tão-somente o que ele faz com a suas circunstâncias.

comportamento, costumes, opinião pública

A esfera pública não existe… mas dá um medo.

Fácil, fácil tem se desqualificado, em certos meios acadêmicos, a noção de esfera pública. Não se põe em dúvida se em toda sociedade contemporânea exista  ou não discussão pública sobre assuntos de toda natureza, inclusive assuntos políticos. Mas se duvida frqüente sobre se fora da livre-discussão exista algo mais relevante politicamente.

A noção mais madura de esfera pública supõe a existência de discussão em público, pelo público e apoiada em razões públicas. Supõe, ademais, que este seja o meio fundamental através do qual se formam a opinião pública e a vontade coletiva. Admite, enfim, que são pré-condições para a sua existência, além dos requisitos básicos de visibilidade e acessibilidade (como poderia ser pública uma discussão secreta?), requerimentos fundamentais de liberdade de expressão, opinião, consciência etc., além da interdição da intromissão decisiva de qualquer outro “poder” (dinheiro ou força) que nao seja o do melhor argumento.

Pois bem, dizem os “realistas”, haveria ideia mais ingenua ou realidade mais inútil? Deixemos de lado a presumida ingenuidade, por enquanto, para lidar com a “inutilidade”. O argumento é seguinte: a esfera da discussão pública é inútil porque nao tem poder deliberativo, ou porque, quando deliberativa não tem poder vinculante. Não é deliberativa, de fato, na maior parte das vezes. A decisão política, em governos representativos, está reservada em sua maior parte para os sistemas legislativos e judiciários do Estado. Ou para o Executivo, em certos casos. A esfera civil pode discutir o quanto queira, mas nao decide nada. No máximo, produz opinião pública: temas correntes, agendas socialmente compartilhadas, quadros interpretativos da atualidade… E para que serve a opinião pública, afinal, se não produz lei e não obriga ninguém? Não aconteceu de haver, há poucas semanas, um parlamentar brasileiro que bradava, com orgulho genuíno e para os soundbites dos jornais do horário nobre, ”não tenho medo da opinião pública”?

Ora, tenho um exemplo da atualidade política que cria um paradoxo para esta tese. Se a esfera pública é inútil e inócua, porque ela apavora tanto os regimes autocráticos ou de baixa convicção democrática. Vejam o caso do Sr. Micheletti em Honduras e da rápida decisão de impedir os insumos básicos para a existência de uma esfera pública naquele país, neste momento, por meio de estado de sítio, da imposição de toque de recolher e da censura a meios de comunicação. Além de outros requerimentos que a estes estão consorciados, pois, afinal, liberdade de publicação e liberdade de reunião são um estorvo para qualquer autocracia porque o seu emprego resulta, geralmente, na prática da divergência argumentada.

Dentre as trezentas definições possíveis de democracia, considere-se também esta: democracia é o sistema em que a esfera civil pode divergir do governo. E os cidadãos devem poder publicar esta divergência, apresentá-la aos outros, para também tentar convencê-los a divergir. E neste patamar recuperamos as noções de esfera e opinião pública. A esfera pública é o meio fundamental da produção do atrito de pensamento, da divergência argumentada , da tentativa de convencimento não submetida a qualquer autoridade senão àquela do melhor argumento e das melhores evidências. A opinião pública só pode resultar desta troca pública de razões e é ela mesma simplesmente a condensação dos fluxos de opinião particulares. Numa esfera pública, divergir de quem governa é natural; e a opinião pública pode a ser materialização e a coletivização desta divergência.

Fosse a esfera pública inútil e inócua (de fato, não faz leis; os legisladores as fazem) por que os autocratas ou candidatos a tanto, de Honduras ou Venezuela, nem titubeiam ao atacar as condições de possibilidade do funcionamento da sua existência? Então, a esfera pública é como a bruxa da piada espanhola: não existe, mas que “las hay, las hay”? Se não existe, por que assombra tanto os autocratas ao ponto de que queiram abrigar a prórpia autoridade longe do seu alcance?

Em suma, a esfera civil não delibera, não legisla, não governa. O único que aparentemente pode fazer nos sistemas do governo representativo é divergir de quem governa e legisla. E isso assusta tanto… Que bom!

esfera pública, opinião pública, teoria democrática

Quem está online?

Nas últimas semanas, duas fontes diferentes de dados ofereceram informações sobre inserção digital, tomando os domicílios (ou famílias) como referência. No Brasil, tão carente de dados sobre o uso de tecnologias de comunicação, o PNAD/IBGE (http://www.ibge.gov.br ) repetiu a sua sondagem anual sobre domícilios com microcomputadores e domicílios com acesso à Internet.

O percentual médio nacional de domicílios com computadores em 2008 é de 31,2%. Em 2007 era de 26,5%. Um bom avanço, certamente, mas o fato é que nem 1/3 das famílias brasileiras tem acesso doméstico à internet. Se pensarmos que, para o nosso horror, 21% dos brasileiros (31,6% dos nordestinos) acima de 15 anos são ainda analfabetos funcionais em 2008 (dado do mesmo PNAD), o dado anterior é até surpreendente. No bom sentido.

Por falar em nordeste, a taxa de lares com computadores é de apenas 15,7%; contra 40% do sudeste. E o fosso está aumentando, porque os dados de 2007 davam 12,2% contra 34,8%.

No que se refere a acesso à internet (fixa), o percentual de famílias brasileiras com conexão doméstica em 2008 é de 23,8%. Não chega a 1/4 dos domicílios. Na Itália, o país com menor inserção dentre as maiores economias da Europa, são 42%;  na Espanha, 51%, na França são 62%, no Reino Unido são 71% e na Alemanha são 75% (Os dados para a Europa são da Comissão Européia  – DG Information Society). No nordeste são 11,6%, contra 31,5% do sudeste. Ou seja, nem no “avançado”sudeste alcançamos um padrão avançado de conexão à internet. E os dados nordestinos nos apresentam a fria realidade do nosso etiopismo digital (sem querer ofender os habitantes daquele nobre país, por favor).

Os dados da Itália estão num relatório do “Osservatorio Italia Digitale 2.0″ da Confindustria/Presidenza del Consiglio dei Ministri (http://www.confindustriasi.it/). Os dados  são bem mais detalhados que os do PNAD. Descobre, por exemplo, que  “apenas 47% da população entre 15 e 74 anos (21,6 milhões em 2008) têm acesso via internet aos serviços disponíveis on-line”.  Pouco para uma democracia digital extensa. Por outro lado, 28% dos italianos já estão com internet móvel, embora só homens de negócios e estudantes de fato sejam usuários dessas coisas andrelemosianas.

O mais interessante da pesquisa italiana, contudo, está numa taxonomia. Classificam-se as famílias italianas em “não-alfabetizadas no uso das tecnologias de comunicação” (família em que nenhum membro sabe usar um PC), “alfabetizadas” (famílias com membros que utitilizam computadores, mas sem internet) e “Internet” (famílias com usuários da internet). Na pesquisa deles, em 2009, 38% das famílias italianas são analfabetas tecnológicos, 17% são alfabetizadas tecnológicas mas não em internet e 45% são conectados. 

A conclusão é interessante e ajudaria a pensar no caso brasileiro: Cerca de metade da população se esforça para superar a primeira fase do “acesso à rede”, enquanto a outra metade está progredido para uma nova fase, web 2.0 e baseada em banda larga e tecnologias móveis. No Brasil, não deve ser diferente, exceto na proporção da elite digital, ainda menor que na Itália. Aparentemente, no mundo digital não existe “classe média” – ou se está enrascado no etiopismo tecnológico ou se está voando para os píncaros da conexão móvel.

Democracia digital, Exclusão digital, Inclusão digital, Internet