A ideologia morreu, viva a ideologia!

Toda véspera de campeonato eleitoral é a mesma coisa: jornalistas e outros membros dos setores intelectuais médios (=SIM) reclamam que os partidos não são mais ideológicos e sofrem com isso. Ainda mais depois que o PT “chegou ao poder” (fórmula-SIM que serve para transformar o ato normal de ganhar eleições em alguma coisa obscura e metafísica) e foi descoberto sob os lençóis com  “bedfellows” que não não costumava freqüentar. Não existem mais ideologia na política, reclamam, tudo agora é “pragmatismo”.

Há de haver verdade nisso. Mas o que realmente quer dizer esta perda de ideologia por parte dos partidos?

Primeiro, uma digressão pessoal. Parece-me no mínimo curioso que a palavra “ideologia” tenha voltado a significar alguma coisa positiva. Sobretudo a uma perspectiva de esquerda. Afinal, foram Marx e Engels que inauguram, ali entre os anos 1830-1840, um significado extremamente negativo da expressão ideologia. Mais que isso: foram eles que colocaram o conceito de ideologia no vocabulário da filosofia política. Curiosamente, o primeiro artigo que publiquei na área de comunicação, em 1991, quando ainda era jovem e tolo, foi sobre o conceito de ideologia na tradição marxiana (de Marx, não do marxismo). O texto se chamava “O olhar oblíquo” e tentava demonstrar como da leitura das obras de Marx e Marx e Engels emergiam duas noções de ideologia. Na primeira, a ideologia era entendida como  ”uma patologia teórica (uma espécie de doença hegeliana) que costuma atingir os pensadores demasiado imersos no próprio trabalho e cuja conseqüência direta é um delírio interpretativo no qual o doente acredita que as ideias, intuições, conceitos, teorias etc.são entidades autônomas, autógenas, autosuficientes e autofundantes”. Neste estado de loucura teórica, o delirante hegeliano acreditaria que as ideias causam ideias e que a história se explica com base na interação entre ideias.  Medidas terapêuticas eficazes: ao paciente devem ser apresentadas as autênticas forças propulsoras do processo histórico, isto é, os os modos e as relações mateoriais  da produção da vida (a ecnonomia). Evidentemente, a ideologia pode cessar apenas se se aceita o “princípio de realidade”: os fatos econômicos são lógica e epistemologicamente prioritários em relação aos fatos representacionais.

No segundo sentido de ideologia, esta é uma chave-hermenêutica “defeituosa, imprópria, incapaz de fornecer uma interpretação efetiva da história e da dialética em geral”.  È a concepção idealista da história, óbvio. Em suma, ideologia é o hegelianismo e todo mundo (políticos, filósofoso, juristas) que caiu nas garras do idealismo sofre dela. O materialismo é a cura.

Em algum momento do século XX a ideologia passou a significar alguma coisa diferente. Talvez tenha sido a Sociologia do Conhecimento (Mannheim e companhia) a produzir a transfiguração, o fato é que o sentido cazuziano (“ideologia… eu quero uma pra viver”) foi se impondo lentamente.

E chegamos ao ponto de assistir ao lamento pelas chamadas “crise das ideologias”, que provocou muito frisson em seminários e coletâneas dos anos 1980 e 1990, além de render muito papo-cabeça nos ” Baixo Gávea” da vida, inclusive no famoso ” circuito 14 do Rio Vermelho” (me refiro ao percurso ex-tudo/pós-tudo/frança/borracharia onde se reúnem todos os quatorze intelectuais desta Soterópolis). No começo, as ideologias em crise eram os sistemas intelectuais do socialismo/comunismo e do liberalismo/capitalismo resultante das queda da contraposição binária, em virtude do esfacelamento do Leste Europeu, no final dos anos 1980. Depois, passou-se a atribuir uma carga existencial ao sentido de ideologia, de forma que a expressão passou a se referir àquilo que já se chamou “visão de mundo” (Weltanschauung). Trata-se de um conjunto de princípios, valores, perspectivas aos quais se adere existencialmente, como um projeto de vida. Um sujeito sem ideologia, nem que fosse uma errada, seria alguém à deriva, autocentrado, sem compromisso com qualquer norte coletivo. O fim da ideologia seria, então, o fim do homem generoso e altruísta, sacrificado no altar no hedonismo, do individualismo e do desengajamento das novas turbas do final de século. Na verdade, era uma geração que, a posteriori, olhava os seus verdes anos como aqueles de uma generosa entrega a sonhos que se sonham juntos, e, ao mesmo tempo, via no hedonismo da nova geração uma perda de autencidade e sentido. Hippies sociologizando yuppies, em suma.

Mas o que significa partidos ideológicos? Isto é assunto para um próximo posto.

Política, eleições, esfera pública, opinião pública

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