Como explicar eleições, em dois modelos.

Gosto de dois modelos teórico-metodológicos interessantes para se pensar eleições do ponto de vista da comunicação política. O primeiro é a teoria dos mercados eleitorais. Não é uma teoria nem nada, mas umas hipóteses integradas que acredito que possam ser empregadas de forma bastante fecunda para explicar as ( quase sempre realmente inexplicáveis) decisões eleitorais. Para a abordagem funcionar, você tem que imaginar o eleitor é um consumidor num mercado (não falei supermercado, tá? :) ).Os produtos disponíveis ao consumo aqui são agendas, atores, programas, ideias. Agendas, atores etc. de natureza política, claro. O consumidor tem, ao fim e ao cabo, que escolher uma barraca, e apenas uma, onde comprar a sua cesta de produtos. Naturalmente, o consumidor gosta de várias coisas, embora tenha as suas preferências, além de, tendencialmente, gostar de certas marcas e sabores. Alguns consumidores entram no mercado sabendo exatamente o que querem consumir, dão uma olhadinha nas outras ofertas, mas se encaminham diretamente para o estande onde está o que querem. Outros, sabem do que gostam e preferem, mas estão abertos a experimentar e serem convencidos. Outros ainda, durante a maior parte do tempo estarão “só olhando”, e só decidirão (se decidirem) quando o mercado estiver para fechar.

No modelo do mercado eleitoral (MME), o consumidor tem o poder de decidir, mas quando ele chega na cena, os estandes, barracas ou gôndolas já estão montados. Caberá a cada vendedor tentar convencer a clientela sobre as qualidades do seu produto (ou sobre os defeitos dos produtos da concorrência).

O segundo modelo é o da distribuição horizontal dos votos. Imagine uma linha horizontal e distribua o universo dos eleitores por um determinado segmento de reta. A linha pode ser organizada segundo variadas clivagens, cada uma das extremidades (ou pólos) representando um valor. Uma forma tradicional é colocar num pólo os liberais, e os conservadores noutros. Uma adaptação é fazer as contraposições entre direita e esquerda.

 De qualquer modo, é preciso imaginar que a distribuição do montante de votos pelo segmento não será homogênea – sempre haverá uma maior concentração no centro, de forma que os extremos serão sempre rarefeitos. Assim, se os pólos forem esquerda vs. direita, haverá sempre mais votos no centro e uma menor quantidade deles na extremidades das alas. Desse modo, prosições mais nítidamente de esquerda e mais consistentemente de direita (“radicais”) serão terão menos votos do que as posições mais nuançadas do centro. Neste quadro, o princípio Schumpeter-Downs vai prever que as posições políticas que alcançarem primeiro (e segurarem, claro!) os eleitores do centro numa competição elitoral fatalmente ganharão a eleição.

O modelo da distribuição horizontal (MDH) supõe, naturalmente, ao contrário do primeiro modelo, que os eleitores já estão em cena quando as propostas, agendas e atores políticos chegam. O eleitor ainda tem o poder de decisão, claro, e a oferta política é que precisa ser adaptadas às suas demandas já dadas e identificadas – a oferta precisa ser “customizada”.

O modelo pode ser melhorado e atualizado se imaginarmos que a clivagem “polar” não seja simplesmente entre “esquerda”  e “direita” ou “liberais” e “conservadores”, mas entre agendas. Certas agendas, que dependem de uma hipercoerência e de uma superconsistência ideológica, são necessariamente polares – como acontece, por exemplo, como certas agendas “típicas” de liberais (ex. assistência social) e de conservadores (ex. posse privada de armas), ou da esquerda (ex. distribuição de renda ou reforma agrária) e da direita (ex. segurança nacional). Outras agendas, sobre as quais não está estabelecido um amplo consenso nacional, também tendem a se colocar perto das extremidades da linha, nos seus pontos com menor concentração de votos (ex. aborto e controle de natalidade, beneficiamento de urânio para fins energéticos). Outras, ao contrário, são agendas compartilhadas por uma grande parte da população (ex. a “questão social”, que deu duas eleições a Lula, o “controle da inflação” + “ajuste das contas públicas”, que havia dado mais duas a Fernando Henrique Cardoso,  a “modernização da economia e do Estado” + “correção da moralidade dos agentes do Estado” que fez uma eleição surpreendentemente cair ao colo de Collor (perdão) de Melo).

Estas agendas de amplo consenso, não estão necessáriamente dadas. Às vezes, sim (ex. quem vai  ousar tirar “segurança pública” da agenda deste campeonato eleitoral?). Na maior parte das vezes, precisa ser construída.

O MDH explicaria melhor do que o MME porque, por exemplo, posições com agendas muito interessantes e avançadas, além de sustentadas por atores de cuja qualidade não se duvida, não conseguem avançar eleitoralmente. Aconteceu com Cristóvam Buarque e a sua obsessão por “educação básica” e muito provavelmente acontecerá com Marina Silva com a sua agenda ambiental, se alguma providência não for tomada. Mas o MME explica a produção dos consensos sobre certas agendas ou, se preferirmos, como certas agendas se deslocam para o centro do “dial eleitoral”. A agenda ambiental, por exemplo, não atrairia mais que uma Kombi de eleitores, há, digamos, trinta anos. Hoje alcançaria uns 10 ou (a depender das outras agendas em disputa) 15% no Brasil – na Suécia, como todo mundo gosta de dizer, certamente mais.  Não bastará para eleger Marina Silva no Brasil, ou alguém presidente dos Estados Unidos, mas é óbvio tratar-se de uma agenda sobre a qual se estabelece crescente consenso.  Foi trabalhando na sua barraca eleitoral que FHC convenceu os eleitores que ainda não era hora de consumir a “questão social”, que a agenda do momento tinha que ser o controle da inflação – e Lula, que apostara todas as  suas fichas na questão da desigualdade econômica, dançou. Ele precisou perder ainda mais uma eleição para convencer os eleitores que era chegada a hora de enfrentar a “questão social” brasileira e que ele era o ator talhado para o papel. E deu certo.

Por enquanto, as eleições podem ser descritas usando os dois modelos. Usando-se o MME se pode ver que dois candidatos têm enormes estabelecimentos no mercado central eleitoral do Brasil, onde se pode consumir de mortadela a cocada & caviar, enquanto uma candidata tem um box modesto com um produto que ela assegura, certificados na mão, ser de ”de qualidade” e “procedência”. Usando-se o MDH veremos dois atores disputando praticamente a mesma agenda consensual (“questão social”+”responsabilidade fiscal”+”desenvolvimento econômico”), além do varejo. Nenhum quer arriscar uma agenda nova, porque é mais fácil e prudente ficar numa agenda sobre a qual há grande consenso social e, no fundo, não pedem aos eleitores para escolher uma agenda (aparentemente, as campanhas já a dão como escolhida), mas para escolher um ator. Por outro lado, a única agenda nova no cenário (“desenvolvimento sustentável/sustentado”) ainda está muito longe do centro da demografia eleitoral.

Acho que Marina Silva chega perto de se dar conta disso, porque nas últimas semanas declara monotonamente não ser monotemática. Afinal, diz, a agenda ambiental perpassa tudo. Ora, educação também, mas dá uma olhada em qual foi o percentual de voto de Cristovam Buarque na última eleição! Marina Silva não tem escolha, se quiser ser viável eleitoralmente, a não ser acrescentar à sua agenda polar alguma agenda central. O que equivaleria a fazer como já o fazem Dilma Rousseff e José Serra, isto é, se apresentar como mais um ator para o papel em disputa, que é o da sustentação da agenda predominante no cenário deste ano. O problema é que, aparentemente, Rousseff e Serra já ocuparam este lugar. Cabe mais um? E como compatibilizar uma agenda polar com uma agenda central num discurso eleitoral? Mas não. Eu acho que a estão convencendo de que ainda é possível atrair público para a sua monoagenda, de forma que até as eleições, querendo Deus, ela se torne uma agenda central. Como se diz na Bahia: Creia! Eu, não. Mas vamos esperar.

Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva, Política, comunicação política, eleições

Comente

(obrigatório)

(obrigatório)


Spam protection by WP Captcha-Free