Partidos ideológicos vs. partidos pragmáticos

… mas voltando ao lamento comum pela perda da “pegada” ideológica dos partidos, o que dizer a propósito? O que seria um partido ideológico neste quadro? Imagino que por meio da expressão “ideologia” se queira referir a um conjunto de representações compartilhadas por um corpo coletivo. São representações coletivamente compartilhadas sobre a realidade política, o Estado, a comunidade política, mas representações fundadas em princípios e valores igualmente condivididos pelo grupo. A esse conjunto cognitivo/axiológico estão associados, ademais, projetos, perspectivas, agendas, compreensões sobre a natureza humana e tudo o mais que sirva para a formação de um ethos especifico e uma identidade social (o “nós” versus “os outros”).

Nesta moldura, um partido ideológico seria aquele dotado de uma identidade social bem demarcada e estabelecida em função de um intenso compartilhamento de princípios, valores, projetos e agendas. Ele teria uma identidade nítida (pode ser identificado ou “isolado” no conjunto); esta identidade seria compartilhada com grande entrega (compromisso, engajamento, commitment) por parte dos seus integrantes, políticos ou militantes; todo o coletivo se orienta em função de projetos e agendas também claras e precisas, por sua vez orientadas pelos princípios e valores do grupo.

Não vou perguntar, ainda, se tal partido existe ou pode ainda existir.  Queria antes tentar identificar o que seria a contraparte semântica de um partido ideológico. Em português, um adjetivo tem sido muito usado recentemente para indicar o “outro” modelo de partido: “pragmático”. Mas o que seria pragmatismo, neste sentido? Me parece que a expressão vem sendo usada para caracterizar um certo tipo de comportamento de grupamentos políticos voltado para maximizar vantagens e minimizar perdas mediante negociações, barganhas e concessões. O “pragmatismo” político consiste em uma espécie de racionalidade instrumental (em Weber se falava de Zweckrationalität, ou de racionalidade orientada por um propósito ou meta).

Ora, se a equação estiver certa, então um partido “ideológico” seria aquele com identidade grupal forte, com altas quotas de engajamento e compromisso dos seus membros, com projetos e agendas fortemente vivenciados (projetos que valem a vida, para o militante), com um ethos político distinto, com valores e princípios (ainda que falsos ou ingênuos) a mover isso tudo.  Por sua vez, um partido pragmático seria um grupamento político que se move para conseguir fins precisos e concretos (em geral, ganhar eleições, governar e exercer mandatos) por meio de comportamentos de alto teor estratégico orientados segundo cálculos dedicados á otimização dos lucros.

Com isso, chegamos ao lamento de que falava no post passado. Primeiro, ele se apóia numa espécie de etnografia da atualidade política. O PMDB já foi um ilustre partido ideológico, dizem, quando a ideologia consistia em resistir à brutalidade política e sustentar as esperanças de uma sociedade de direitos e liberdades. Depois da restauração da democracia, o partido se tornou, pouco a pouco, uma mera agência política, que a cada feira eleitoral oferece aos consumidores um conjunto de agentes prontos para o (e ávidos pelo) exercício de mandatos ou, pelo menos, de cargos no interior do Estado. O PSDB saiu do PMDB junto com a ideologia, reclamando que o tipo de recrutamento de políticos e o tipo de costume político que se vinham implantando neste último eram incompatíveis com princípios e valores dotados de qualquer coerência ideológica. O PSDB, então, foi ser “autêntico”, pequeno, intelectual, reserva moral no panorama político tristíssimo que se situa entre 1984 e o início da década seguinte – pelo menos -, onde a ditadura militar deu lugar não à democracia e à virtude política, mas a uma corrida de lobos e hienas contra o Estado e os seus recursos. Pois bem, quis o  destino rir-se de tanta convicção ideológica quando, em 1994, o PSDB inaugura justamente o moderno pragmatismo político brasileiro, construindo uma aliança política, não com o PMDB, cepa de onde se originou, mas com o PFL, uma das bifurcações de um rio que, a montante, conduz diretamente à fonte que sustentou a brutalidade política da última ditadura deste pobre país. Um movimento moralmente surpreendente, mas taticamente eficaz. Assim, a ideologia tucana virou troféu de caça na casa do PFL, principalmente daquele de ACM, a quem FHC e companhia deram em sacrifício, para sacramentar o pacto, o PSDB baiano.

Foi assim que, em grande parte dos anos 1990, se dizia que o PT era o último grande partido ideológico no Brasil. Aliás, até parece que o conceito de “partido ideológico” foi moldado pensado neste partido, visto se encaixar tão bem no figurino, sob todos os pontos de vista. O petismo era uma identidade existencial e uma configuração física, uma fé e uma bandeira. Mas em 2002, enfarado de perder eleições no primeiro turno para o “pragmatismo” eleitoral do PSDB, Lula e o PT resolveram usar o modelo-PSDB contra o  PSDB, trazendo para o próprio leito eleitoral PL, PP, PTB, partidos onde a ideologia nunca passou, nem para uma breve visita de cortesia. De lá pra cá, a história é por demais conhecida, de forma que posso poupar meus dois leitores da descrição das peripécias e desenlaces do PT em tempos de muito oportuno-pragmatismo e parca ideologia.

Claro que a história se repete, de forma autêntica ou como farsa, não sei, com a saída da PSOL, para presumivelmente proteger o carisma e a “chama autêntica” de um genuíno partido ideologizado de esquerda da banalização pragmática do PT. E é claro que alguns partidos políticos no panorama brasileiro, pequenos e monotemáticos, reivindicam, às vezes com considerável justiça, a sua identidade como partido ideológico.

Assim, as coisas: a ideologia que estava aqui o pragmatismo comeu!  Mas e daí? Penso que duas perguntas merecem ainda a nossa atenção. Primeiro, é realista imaginar que partidos de alto teor ideológico e baixo teor pragmático possam ganhar eleições ou, pelo menos, eleições majoritárias? Segundo, e no mesmo diapasão, é evidente a alta eficácia eleitoral do modelo pragmático. Isso produziu uma situação política impensável  no início dos anos 1980, no Brasil, a saber, que um dia dois partido da faixa centro-esquerda do espectro político obteriam uma hegemonia política de 20 anos (estou incluindo esta eleição, claro, que nem o Daime, que é Santo, conseguirá dar a Marina) – e sem um “challenger” sequer no horizonte. Ora, a eficácia não é produto de alguma alquimia eleitoral, mas a expressão da vontade popular. Em outros termos, o povo brasileiro tem decidido, há duas décadas quase, consumir ofertas eleitorais “pragmáticas” ao invés de ofertas “ideológicas”, pelo menos em âmbito nacional. Em todos os campeonatos eleitorais vencidos pelo PSDB ou pelo PT houve ofertas mais ideológicas, à esquerda e à direita, que foram rejeitadas. Então, isso não é simplesmente uma questão partidária, mas uma questão social. Como então imaginar que um partido, com interesses reais na conquista de mandatos majoritários, possa se oferecer ideologicamente para consumidores pragmáticos?

Política, costumes, eleições, opinião pública, pragmatismo político

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