Quem está online?
Nas últimas semanas, duas fontes diferentes de dados ofereceram informações sobre inserção digital, tomando os domicílios (ou famílias) como referência. No Brasil, tão carente de dados sobre o uso de tecnologias de comunicação, o PNAD/IBGE (http://www.ibge.gov.br ) repetiu a sua sondagem anual sobre domícilios com microcomputadores e domicílios com acesso à Internet.
O percentual médio nacional de domicílios com computadores em 2008 é de 31,2%. Em 2007 era de 26,5%. Um bom avanço, certamente, mas o fato é que nem 1/3 das famílias brasileiras tem acesso doméstico à internet. Se pensarmos que, para o nosso horror, 21% dos brasileiros (31,6% dos nordestinos) acima de 15 anos são ainda analfabetos funcionais em 2008 (dado do mesmo PNAD), o dado anterior é até surpreendente. No bom sentido.
Por falar em nordeste, a taxa de lares com computadores é de apenas 15,7%; contra 40% do sudeste. E o fosso está aumentando, porque os dados de 2007 davam 12,2% contra 34,8%.
No que se refere a acesso à internet (fixa), o percentual de famílias brasileiras com conexão doméstica em 2008 é de 23,8%. Não chega a 1/4 dos domicílios. Na Itália, o país com menor inserção dentre as maiores economias da Europa, são 42%; na Espanha, 51%, na França são 62%, no Reino Unido são 71% e na Alemanha são 75% (Os dados para a Europa são da Comissão Européia – DG Information Society). No nordeste são 11,6%, contra 31,5% do sudeste. Ou seja, nem no “avançado”sudeste alcançamos um padrão avançado de conexão à internet. E os dados nordestinos nos apresentam a fria realidade do nosso etiopismo digital (sem querer ofender os habitantes daquele nobre país, por favor).
Os dados da Itália estão num relatório do “Osservatorio Italia Digitale 2.0″ da Confindustria/Presidenza del Consiglio dei Ministri (http://www.confindustriasi.it/). Os dados são bem mais detalhados que os do PNAD. Descobre, por exemplo, que “apenas 47% da população entre 15 e 74 anos (21,6 milhões em 2008) têm acesso via internet aos serviços disponíveis on-line”. Pouco para uma democracia digital extensa. Por outro lado, 28% dos italianos já estão com internet móvel, embora só homens de negócios e estudantes de fato sejam usuários dessas coisas andrelemosianas.
O mais interessante da pesquisa italiana, contudo, está numa taxonomia. Classificam-se as famílias italianas em “não-alfabetizadas no uso das tecnologias de comunicação” (família em que nenhum membro sabe usar um PC), “alfabetizadas” (famílias com membros que utitilizam computadores, mas sem internet) e “Internet” (famílias com usuários da internet). Na pesquisa deles, em 2009, 38% das famílias italianas são analfabetas tecnológicos, 17% são alfabetizadas tecnológicas mas não em internet e 45% são conectados.
A conclusão é interessante e ajudaria a pensar no caso brasileiro: Cerca de metade da população se esforça para superar a primeira fase do “acesso à rede”, enquanto a outra metade está progredido para uma nova fase, web 2.0 e baseada em banda larga e tecnologias móveis. No Brasil, não deve ser diferente, exceto na proporção da elite digital, ainda menor que na Itália. Aparentemente, no mundo digital não existe “classe média” – ou se está enrascado no etiopismo tecnológico ou se está voando para os píncaros da conexão móvel.
