Sobre vestidos e cérebros. Ambos curtos.

Criticar as recentes brutalidades da Uniban é a nova onda. Com justiça. Hoje na Facom (UFBa), contudo, havia um cartaz a este respeito que me fez pensar. O cartaz, fixado na parede do Centro Acadêmico, fazia o seu desagravo mais ou menos nestes termos: “Vestido curto pode, o que não pode é cérebro curto”. Simpática a ideia. Acho que os autores queriam dizer que não importa o tamanho do seu vestido, importa sim a sua inteligência. Justo. Mas a frase não diz isso - provavelmente em virtude do demoníaco descolamento entre o que se quer e o que se consegue dizer. Tentanto defender a liberdade do vestido, o texto desfere uma ataque contra a burrice. Com a minha mania de duvidar de tudo, não vejo problema em admitir que vestido curto pode, mas por que “cérebro curto” não pode?  E fiquei cá comigo matutando que nesses tempos de Direitos Humanos, respeito às minorias e às liberdades, a democracia correndo solta como valor universal, todo mundo defende todas as minorias. Menos aquela dos “cérebros curtos”. Como se a burrice fosse alguma culpa ou defeito moral, declarar horror a déficits da inteligência (a alheia, claro) é afetação impune e tranquilamente compartilhada. Sobretudo entre os sublimes e os bem-pensantes. Sempre desconfiei que os muito inteligentes (e até os mais ou menos inteligentes que se julgam brilhantes) são particularmente cruéis com os outros. Dizer “não suporto gente do tipo x” é algo socialmente inconveniente (desde que x esteja para signos como “gorda”, “branca”, “do terceiro mundo”, “heterossexual” sei lá); exceto quanto se trata de “burrice”. Detestar gente burra pode. Dos intelectualmente limitados se pode livremente ter horror. Sempre me diverti com as declarações femininas (homem é básico, não conta) sobre critérios de escolha de homens. Mesmo em Nova/Cosmopolitan, para a qual a mulher moderna quer sim um homem com corpo lindo e jovem, no topo dos requisitos está a inteligência. Algumas até afirmam que não fazem questão de beleza, mas que a inteligência, em um homem é essencial. Ora, pois! Eu não descreio dessas coisas, mas é que algumas dessas declarantes me pareceram, algumas vezes ao menos, consideravelmente parvas. Ora, não seria preciso ter inteligência abundante para se descobrir a inteligência que abunda nos candidatos a parceiros amorosos? É que comparações só podem ser feitas se tivermos parâmetros, não é não? A depender do parâmetro adotado a discriminação anti-burrice iria produzir efeitos infernais. Adotando-se um bom parâmetro, por exemplo, se uma campainha disparasse cada vez que um cérebro mais curto entrasse numa faculdade, provavelmente nunca se conseguiria ter silêncio suficiente para uma aula. Se a campanhia fosse colocada no centro das cidades ninguém conseguiria mais dormir. Então, talvez, o discurso anti-desinteligência não seja sobre os outros, afinal, mas sobre nós mesmos (pois claro, burros são sempre e só os outros). No fundo queremos nos distinguir dos demais, afirmando de nós e negando deles algo que é extremamente valorizado: a inteligência. Afetar desprezo pelos menos inteligentes é, no fundo, querer ser integrado ao clube dos sabidos, dos inteligentes, dos brilhantes ou, até, quem sabe, dos geniais. O que não é uma ideia brilhante, pois se o parâmetro para a atribuição da valor é completamente privado e subjetivo, a rigor o atributo da inteligência autodeclarada não distingue ninguém. E as pessoas de quem gostamos muito sempre as vemos particularmente inteligentes (sempre desconfiei que o amor mais produz a inteligência do amado do que é produzido por ela, ao contrário do que dizemos). Mais vale então afirmar que tanto faz a dimensão do seu cérebro ou do seu vestido, desde que voce seja uma pessoa que preste. O que distingue um ser humano é ainda e tão-somente o que ele faz com a suas circunstâncias.

comportamento, costumes, opinião pública

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